Entrevista com Luciane Molina 

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Temática: O papel da Secretaria dos Direitos da Pessoa com deficiência

Temática: O papel da Secretaria dos Direitos da Pessoa com deficiência

Entrevista com Luciane Molina

A professora e pesquisadora Luciane Molina, que atualmente trabalha como consultora de roteiros de audiodescrição cedeu uma entrevista para o nosso Portal e esclareceu algumas curiosidades sobre o trabalho desenvolvido em uma Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e compartilhou conosco sobre o trabalho que vem desenvolvendo na área da educação inclusiva. Durante a entrevista a pesquisadora que atualmente continua desenvolvendo estudos sobre acessibilidade esclareceu sobre a importância da empregabilidade da pessoa com deficiência e a sua contribuição no trabalho que a secretaria vem desenvolvendo em relação a acessibilidade. Confira a seguir e conheça uns detalhes do percurso formativo e profissional da professora e leia a entrevista na integra. 

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Imagem: foto do acervo da Luciane Molina

Luciane Molina, atuou na consultora de roteiros de audiodescrição entre eles na TV Aparecida.  Professora Braillista. Cursa mestrado em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação e Desenvolvimento (UNITAU-SP). Especialista em Atendimento Educacional Especializado (UNESP-SP). Especialista em Tecnologias, Formação de Professores e Sociedade (UNIFEI-MG).  Graduada em Pedagogia (Organização Guará de Ensino). Atuou na Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e do Idoso de Caraguatatuba-SP na área de políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência. Foi presidente do Conselho da Pessoa com Deficiência de Caraguatatuba (COMDEFI). Venceu o IV Prêmio Sentidos na categoria júri popular devido a atuação no segmento da inclusão e diversidade.

Portal Educação Inclusiva (Porta lEI): Como as secretarias da pessoa com deficiência vem contribuindo para assegurar os direitos das pessoas com deficiência? 

Luciane Molina (LM): Ter participado dos programas e ações da Secretaria Municipal dos direitos da Pessoa com Deficiência e do Idoso de Caraguatatuba, entre 2014 e 2016, fez com que eu percebesse mais de perto o impacto que o investimento público em acessibilidade exerce sobre cada uma das pessoas que se tornam cidadãos diante das estruturas inclusivas ou dos atendimentos voltados à solucionar dificuldades de ordem comunicacional ou de mobilidade. Embora a secretaria lidasse com questões relacionadas aos direitos da pessoa com deficiência e também do idoso, as medidas de proteção colocam esses dois públicos num mesmo patamar de importância na medida em que as articulações com todos os setores da administração pública visam estimular que todas as políticas públicas e os programas contemplem a promoção, a proteção e a defesa dos direitos da pessoa de forma global. 
As secretarias articulam com as diferentes esferas de governo estabelecendo parcerias com sociedade civil, iniciativas públicas, privados e do terceiro setor no sentido de desenvolver ações que garantam inclusão, participação e autonomia das pessoas. Essas articulações incluem também um efetivo trabalho junto aos Conselhos de promoção de direitos. Ter uma pasta ligada a essa temática traz maior lucidez e clareza para centralizar as questões que carecem de atenção específica, ao mesmo tempo em que dialoga com os demais setores a fim de se estabelecer um consenso nas ações que cada pasta executa.
As secretarias precisam ter uma proximidade com o público ao qual ela defende, ouvir os anseios, verificar viabilidade, planejar e articular as ações para que os programas sejam executados também dentro da razoabilidade da administração pública.

 

Portal EI: Quais eram as suas atribuições na secretaria dos Direitos da pessoa com deficiência de Caraguatatuba?

LM: Ocupava a função de Chefe de Sessão de Comunicação Inclusiva. Nessa posição eu cuidava das questões que tinham relação direta com a acessibilidade comunicacional. Isso é: orientação aos estabelecimentos públicos e privados quanto a sinalização acessível; planejamento e oferta de oficinas, cursos e formações para o segmento do terceiro setor e para os funcionários públicos acerca do atendimento à pessoa com deficiência; palestras em escolas sobre prevenção; Às deficiências e sobre empregabilidade para o programa: Selo Empresa Inclusiva; adaptação de materiais em Braille; confecção de placas de sinalização; orientações diversas aos munícipes com deficiência sobre aquisição de descontos em impostos para aquisição de produtos; articulação com outras secretarias municipais com relação a temática da comunicação inclusiva, acompanhamento e orientação a universidades e escolas sobre adequações curriculares e atendimento aos estudantes com deficiência visual matriculados nessas instituições, dentre outros. Também representei a Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e do Idoso no Conselho Municipal da Pessoa com deficiência, assumindo a presidência durante o ano de 2016. Além disso, atuei pela Secretaria, num centro de convivência, cuidando da sala de recursos e tecnologias da visão, atendendo diretamente pessoas cegas e com baixa visão maiores de 18 anos para a instrução em Braille, uso de celulares e computador com leitores de tela.

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Imagem: foto do acervo da Luciane Molina

Portal EI: Como você percebe o envolvimento das pessoas com deficiência que ocupam esses cargos nas secretarias e como se dá a contribuição destas pessoas frente as ações desenvolvidas?

LM: A empregabilidade da pessoa com deficiência ainda é um grande tabu para a sociedade, principalmente para os empregadores. O importante é que as pessoas com deficiência ocupem os cargos, seja em qual segmento for, por conta da competência que possuem e da formação exigida para tal. O fato de ter uma deficiência, somente, não habilita uma pessoa para trabalhar em prol dos seus pares, embora a militância seja muito válida em todos os sentidos. Por isso, além de engajados com a causa, os profissionais com deficiência que ocupam esses cargos precisam ter um envolvimento com a atmosfera organizacional, cientes das relações intra e interpessoais, empatia, liderança, poder de decisão e habilidades técnicas necessárias ao desenvolvimento da função. É importante saber que um servidor público precisa satisfazer-se profissionalmente servindo o outro. A grande contribuição do servidor com deficiência dentro das secretarias é o diálogo estabelecido com outro diante da sua deficiência. Isso significa que a deficiência, ali dentro, deve ir além de uma estampa promocional à secretaria, ao passo que mostrar-se ao público como pessoa com deficiência atuante naquela política pública, em especial, funciona como um pilar de enfrentamento das desigualdades vivenciadas pelas pessoas as quais a secretaria abraça. A pessoa com deficiência ali seria muito mais o resultado de que existe o sucesso dentro da sociedade inclusiva. É importante deixar claro que a deficiência é apenas uma parte da pessoa e que essa não é a prerrogativa principal para estarem ali.

Portal EI: O que significou para você enquanto profissional da educação e que também enquanto pessoa que possui deficiência visual, trabalhar nas ações desenvolvidas por esta secretaria?

LM: Cheguei a Caraguatatuba depois de já ter um percurso profissional consolidado na área da educação, desenvolvendo trabalhos pelo Vale do Paraíba. Desci a serra em 2013 e fui surpreendida, de cara, com uma estrutura completamente diferente daquela em que eu estava imersa. Uma estrutura de acessibilidade muito ampla e articulada, que servia ao munícipe e, ao mesmo tempo, ao turista e que, de certa forma me abraçou afetivamente na questão do pertencimento. Era notável e visível que as políticas públicas de inclusão ali funcionavam de fato e que, embora tivessem arestas a serem aparadas, eu mergulhava com entusiasmo naquela atmosfera que eu ousei mensurar como "sentir-me igual na multidão".
Os esforços para se conseguir estar ali junto com todos, participar e pertencer aos espaços públicos eram mesmo muito menores, porque a acessibilidade reduz o impacto da deficiência e, consequentemente, nos tornamos menos incapazes. A princípio reconheci o espaço físico com as guias rebaixadas, alguns dos prédios públicos visitados com piso podo tátil, calçadas bem conservadas, vagas de estacionamento para PcD fiscalizadas de verdade, o programa Praia Acessível funcionando, academias ao ar livre com equipamentos adaptados, entre outros. A medida em que eu era inserida a esse novo universo, eu compreendia que tudo isso era resultado de uma política pública transversal, articulada e planejada pela Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e do Idoso (SEPEDI). Desejei fortemente estar ali dentro, contribuindo com isso tudo.

A acessibilidade é uma forma de conduzir cada um ao encontro de nós mesmos, da nossa própria identidade enquanto pessoas, enquanto cidadãos, muito além daquilo que nos faltava e que, em outros lugares, nos levaria a representatividade social do estigma e do menos capaz.

Falo no plural porque tenho absoluta certeza de que, assim como mandam os manuais, a política pública executada em Caraguatatuba atingiu muita gente; todas aquelas que, como eu, vivíamos em outros momentos tantos retrocessos. Caraguá foi o palco das minhas tantas primeiras vezes, àquelas primeiras vezes em que pude sentir-me eu mesma, sem preocupar-me com rótulos, ao tentar ser mais semelhante aos que a sociedade ousou "normalizar".

O sociólogo Bauman (2003) diz que a liberdade é inversamente proporcional a segurança, para explicar que quando a minoria abre mão do seu grupo menor de pertencimento e vai em direção da conquista da liberdade, ela perde a segurança, porque sua diferença torna-se mais evidente nas relações dentro de um grupo maior.

Eu então ouso contradize-lo nessa teoria, porque eu conquistei, em Caraguatatuba, a liberdade e, ao mesmo tempo, a segurança. Liberdade por estar agora socializando minha identidade; segurança, por partilhar esse pertencimento percorrendo os espaços com acessibilidade e, consequentemente com menores riscos; socializando o conhecimento técnico e profissional sobre a pessoa com deficiência.

Cheguei para ministrar dois cursos, mas talvez quem aprendeu muito mais tenha sido eu. E o grande aprendizado não foi as aplicações das normas da ABNT na afixação dos pisos podo táteis, nem nas sinalizações. O grande aprendizado centrava-se nas relações humanas que estabeleci durante o período em que fui presenteada por estar ali, servindo a população com tudo o que sei fazer de melhor em prol da pessoa com deficiência, colocando em prática o conhecimento técnico e exercitando a empatia ao enxergar no outro a possibilidade de pertencimento que talvez nem ele tivesse a dimensão de conquistar.

O maior aprendizado foi conseguido na coletividade, vivenciado pela atmosfera colaborativa, em que estávamos juntos por um só ideal: executar, implementar, planejar políticas públicas de inclusão que fossem impactantes e capazes de devolver a dignidade e a cidadania de milhares de pessoas com deficiência e idosos que viviam às margens desse universo amplo de possibilidades. Foram tantos momentos, enquanto servidora municipal, que me fizeram mais gente, mais profissional, mais confiante de que, aquele novo desafio também cabia dentro dos meus sonhos. Eu iniciei o meu relato dizendo que, embora eu tivesse vivido diferentes experiências profissionais, todas elas tinham sido basicamente na área da educação. Dessa vez era diferente. Ao mesmo tempo que eu estava sendo elevada à categoria de cidadã, eu seria também a responsável por alargar as fronteiras de outras pessoas.

A SEPEDI sob a gestão de Ivy Malerba me fez conhecer mais as outras ações com impacto direto na sociedade caraguatatubense, como a empregabilidade para PcD, o Prêmio Empresa Inclusiva, as formações ministradas a outros servidores municipais sobre como lidar com a PcD, os eventos nos Fóruns Inclusivos, no programa calçada acessível, entre outros.

A gestão de uma secretaria dessa magnitude também faz diferença no sucesso dessa política pública que, em tantos lugares tem sido negligenciada e delegada a segundo plano. Essa gestão consciente e humana me conduziu para que eu fizesse o meu melhor. Acontece que esse "melhor" só foi possível porque eu pude contar com uma boa liderança. Não só isso; pude contar com recursos e ferramentas disponibilizadas para que eu exercesse a minha função operacional e técnica. Foi no exercício da profissão que eu ampliei e alarguei as minhas fronteiras muito além do olhar pedagógico. Assim que mudamos para um espaço novo e mais amplo também fui presenteada com a possibilidade de usar um notebook com software leitor de telas, sem que fosse preciso usar o meu próprio equipamento, uma impressora Braille, um acervo inteirinho de material de consulta em Braille e algumas adequações no sistema interno para adequar uma programação com acessibilidade e mais usabilidade. Enfim, tive a tão sonhada autonomia e independência no espaço de trabalho, com a capacidade de decisão sobre os usos dessas ferramentas. Superamos juntas todas as barreiras físicas que faltavam, pois, as atitudinais, essas já estavam incorporadas a agenda do governo municipal. Fui ouvida e consultada todas as vezes.

Entendemos a política pública como as ações, metas e planos que os governos traçam para alcançar o bem-estar da sociedade e o interesse público. Desde que o interesse público esteja alinhado com as necessidades do povo, essas políticas públicas são muito mais impactantes positivamente. Fui respeitada como profissional e como cidadã, de modo que enxergaram os meus alcances, muito mais do que os meus limites, fazendo coro para todos os que recebiam da secretaria a cidadania materializada por uma tecnologia assistiva, por um atendimento humanizado, por um evento organizado com interpretação de Libras e Audiodescrição, pelos espaços com acessibilidade, por um atendimento no comércio ou no setor hoteleiro resultante da capacitação oferecida para lidarem com esse público, por um banho de mar junto aos instrutores, por um passeio na trilha sensorial, por uma sinalização e cardápios acessíveis em Braille, pelas oficinas no centro de convivência e tantas outras ações que foram decisivas para esse pertencimento tão intenso. Lembrando que políticas públicas não são e nem nunca foram praticadas como assistencialismo.

Fui profissional, mas acima de tudo fui cidadã, munícipe, fui povo. No conselho da pessoa com deficiência, um espaço de decisões muito impactantes para a fiscalização e para a propositura de questões para qualificar ainda mais esse trabalho articulado, tornei-me mais politizada.

O Conselho me fez mais politizada e consciente de que o individual não cabe na política pública, mas que o coletivo abraça cada uma dentro das possibilidades e especificidades das demandas sociais. Fizemos eleições com acessibilidade, pleitos que até então não partiam da premissa "Nada sobre nós, sem nós".

Finalizei o meu percurso como servidora municipal em dezembro de 2016, certa de que as novas experiências abraçadas por mim seriam tão especiais quanto cada uma das que vivenciei durante o meu desenvolvimento profissional.

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Imagem: foto do acervo da Luciane Molina

Portal EI: Atualmente qual tem sido o seu envolvimento com os processos inclusivos?

LM: Hoje, além de consultora em AD, sou tutora eletrônica nas disciplinas pedagógicas nos cursos de licenciatura do Núcleo de  educação a distância da Universidade de Taubaté.
Embora eu já tivesse  bastante familiaridade com a plataforma Moodle e grande desenvoltura no uso de tecnologia assistiva, em especial leitores de tela para computador, logo que fui chamada a assumir a vaga a qual conquistei em um processo seletivo, nem eu nem a instituição tínhamos a real noção de como seria esse trabalho.
É nesse ponto que tenho defendido o que pontuo como sendo o processo de inclusão dialógico e ativo. Todos os profissionais os quais passei a conviver, da área pedagógica, de tecnologia da informação, ao administrativo, me acolheram com muito carinho e total isenção no que diz respeito à deficiência visual. Mais uma vez senti-me profissional, senti-me gente e cidadã, senti-me igual na  multidão. Foi a partir do diálogo que a nossa relação se estabeleceu da maneira mais natural possível. 
A ênfase nunca esteve no que faltava, mas no que era possível alcançar.  Fui colocada na centralidade desse processo quando me confiaram o dever de cumprir as tarefas comuns a todos os demais tutores, abrindo-se para a escuta às minhas necessidades e também para o enfrentamento das situações mais técnicas. Graças ao diálogo e ao esforço conjunto, hoje temos uma plataforma com maior acessibilidade também para os alunos com deficiência visual que frequentam ou que vierem a frequentar esta Instituição de ensino Superior. Por onde passo tento plantar a “sementinha” da inclusão, o que me realiza como pessoa e como profissional. Diferentemente de tudo o que eu já havia feito durante o meu percurso profissional, atuando apenas com questões ligadas a educação especial e inclusiva, aos direitos da pessoa com deficiência e acessibilidade,  ali no NEaD as minhas atribuições são  outras. Isso fez com que eu alargasse minha visão de mundo para além do que eu enxergava até então. Ultrapassei as fronteiras do que imaginei não ser possível desvencilhar e percebi que a transversalidade da educação especial permite que ela faça coro com qualquer outro ato formativo, sem delimitação de espaços, sem separação conceitual. O engajamento que tenho com acessibilidade também tem sido fundamental para que,  junto com os demais profissionais, possamos contribuir com as situações de planejamento e reorganização da IES para continuar melhor atendendo os estudantes com deficiência visual. Aos poucos minha história vai sendo descoberta pelos alunos, assim como as histórias de vida deles vão se entrelaçando com a nossa. Tem sido muito especial e gratificante realizar a tutoria eletrônica, em especial porque sempre desejei atuar no ensino superior com formação de professores. Considero que essa etapa formativa seja decisiva para o desenvolvimento profissional docente dos futuros professores que se apropriam de um novo modelo de pensar educação. Sou o exemplo de que a educação transforma vidas e é sob essa perspectiva que eu enxergo a minha, a nossa missão dentro da IES em que tenho o privilégio de compor o corpo docente. Sou grata a Unitau na figura dos funcionários, direção, corpo docente e alunos por me permitirem viver essa experiência linda!

LM: Como pesquisadora e consultora em audiodescrição tenho desenvolvido trabalhos desde 2010, ano em que produzi  o primeiro curso de formação de roteiristas na modalidade de Educação a Distância. Já fiz consultoria para exposições de fotografia, museu e material audiovisual, atuando junto a equipe de acessibilidade da TV Aparecida. Sou professora e co-produtora dos cursos de Audiodescrição  em parceria com a profª Dra  Ana Julia nas turmas básica, intermediária aplicada a objetos educacionais e intermediária aplicada a objetos culturais, ambos ofertados pela Azimuth E-Learning.

 

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Imagem: foto do acervo da Luciane Molina

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Imagem: foto do acervo da Luciane Molina

A professora e pesquisadora Luciane Molina, que atualmente trabalha como consultora de roteiros de audiodescrição cedeu uma entrevista para o nosso Portal e esclareceu algumas curiosidades sobre o trabalho desenvolvido em uma Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e compartilhou conosco sobre o trabalho que vem desenvolvendo na área da educação inclusiva. Durante a entrevista a pesquisadora que atualmente continua desenvolvendo estudos sobre acessibilidade esclareceu sobre a importância da empregabilidade da pessoa com deficiência e a sua contribuição no trabalho que a secretaria vem desenvolvendo em relação a acessibilidade. Confira a seguir e conheça uns detalhes do percurso formativo e profissional da professora e leia a entrevista na integra. 

Luciane Molina, atuou na consultora de roteiros de audiodescrição entre eles na TV Aparecida.  Professora Braillista. Cursa mestrado em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação e Desenvolvimento (UNITAU-SP). Especialista em Atendimento Educacional Especializado (UNESP-SP). Especialista em Tecnologias, Formação de Professores e Sociedade (UNIFEI-MG).  Graduada em Pedagogia (Organização Guará de Ensino). Atuou na Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e do Idoso de Caraguatatuba-SP na área de políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência. Foi presidente do Conselho da Pessoa com Deficiência de Caraguatatuba (COMDEFI). Venceu o IV Prêmio Sentidos na categoria júri popular devido a atuação no segmento da inclusão e diversidade.

Portal Educação Inclusiva (Porta lEI): Como as secretarias da pessoa com deficiência vem contribuindo para assegurar os direitos das pessoas com deficiência? 

Luciane Molina (LM): Ter participado dos programas e ações da Secretaria Municipal dos direitos da Pessoa com Deficiência e do Idoso de Caraguatatuba, entre 2014 e 2016, fez com que eu percebesse mais de perto o impacto que o investimento público em acessibilidade exerce sobre cada uma das pessoas que se tornam cidadãos diante das estruturas inclusivas ou dos atendimentos voltados à solucionar dificuldades de ordem comunicacional ou de mobilidade. Embora a secretaria lidasse com questões relacionadas aos direitos da pessoa com deficiência e também do idoso, as medidas de proteção colocam esses dois públicos num mesmo patamar de importância na medida em que as articulações com todos os setores da administração pública visam estimular que todas as políticas públicas e os programas contemplem a promoção, a proteção e a defesa dos direitos da pessoa de forma global. 
As secretarias articulam com as diferentes esferas de governo estabelecendo parcerias com sociedade civil, iniciativas públicas, privados e do terceiro setor no sentido de desenvolver ações que garantam inclusão, participação e autonomia das pessoas. Essas articulações incluem também um efetivo trabalho junto aos Conselhos de promoção de direitos. Ter uma pasta ligada a essa temática traz maior lucidez e clareza para centralizar as questões que carecem de atenção específica, ao mesmo tempo em que dialoga com os demais setores a fim de se estabelecer um consenso nas ações que cada pasta executa.
As secretarias precisam ter uma proximidade com o público ao qual ela defende, ouvir os anseios, verificar viabilidade, planejar e articular as ações para que os programas sejam executados também dentro da razoabilidade da administração pública.

 

Portal EI: Quais eram as suas atribuições na secretaria dos Direitos da pessoa com deficiência de Caraguatatuba?

LM: Ocupava a função de Chefe de Sessão de Comunicação Inclusiva. Nessa posição eu cuidava das questões que tinham relação direta com a acessibilidade comunicacional. Isso é: orientação aos estabelecimentos públicos e privados quanto a sinalização acessível; planejamento e oferta de oficinas, cursos e formações para o segmento do terceiro setor e para os funcionários públicos acerca do atendimento à pessoa com deficiência; palestras em escolas sobre prevenção; Às deficiências e sobre empregabilidade para o programa: Selo Empresa Inclusiva; adaptação de materiais em Braille; confecção de placas de sinalização; orientações diversas aos munícipes com deficiência sobre aquisição de descontos em impostos para aquisição de produtos; articulação com outras secretarias municipais com relação a temática da comunicação inclusiva, acompanhamento e orientação a universidades e escolas sobre adequações curriculares e atendimento aos estudantes com deficiência visual matriculados nessas instituições, dentre outros. Também representei a Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e do Idoso no Conselho Municipal da Pessoa com deficiência, assumindo a presidência durante o ano de 2016. Além disso, atuei pela Secretaria, num centro de convivência, cuidando da sala de recursos e tecnologias da visão, atendendo diretamente pessoas cegas e com baixa visão maiores de 18 anos para a instrução em Braille, uso de celulares e computador com leitores de tela.

Portal EI: Como você percebe o envolvimento das pessoas com deficiência que ocupam esses cargos nas secretarias e como se dá a contribuição destas pessoas frente as ações desenvolvidas?

LM: A empregabilidade da pessoa com deficiência ainda é um grande tabu para a sociedade, principalmente para os empregadores. O importante é que as pessoas com deficiência ocupem os cargos, seja em qual segmento for, por conta da competência que possuem e da formação exigida para tal. O fato de ter uma deficiência, somente, não habilita uma pessoa para trabalhar em prol dos seus pares, embora a militância seja muito válida em todos os sentidos. Por isso, além de engajados com a causa, os profissionais com deficiência que ocupam esses cargos precisam ter um envolvimento com a atmosfera organizacional, cientes das relações intra e interpessoais, empatia, liderança, poder de decisão e habilidades técnicas necessárias ao desenvolvimento da função. É importante saber que um servidor público precisa satisfazer-se profissionalmente servindo o outro. A grande contribuição do servidor com deficiência dentro das secretarias é o diálogo estabelecido com outro diante da sua deficiência. Isso significa que a deficiência, ali dentro, deve ir além de uma estampa promocional à secretaria, ao passo que mostrar-se ao público como pessoa com deficiência atuante naquela política pública, em especial, funciona como um pilar de enfrentamento das desigualdades vivenciadas pelas pessoas as quais a secretaria abraça. A pessoa com deficiência ali seria muito mais o resultado de que existe o sucesso dentro da sociedade inclusiva. É importante deixar claro que a deficiência é apenas uma parte da pessoa e que essa não é a prerrogativa principal para estarem ali.

Portal EI: O que significou para você enquanto profissional da educação e que também enquanto pessoa que possui deficiência visual, trabalhar nas ações desenvolvidas por esta secretaria?

LM: Cheguei a Caraguatatuba depois de já ter um percurso profissional consolidado na área da educação, desenvolvendo trabalhos pelo Vale do Paraíba. Desci a serra em 2013 e fui surpreendida, de cara, com uma estrutura completamente diferente daquela em que eu estava imersa. Uma estrutura de acessibilidade muito ampla e articulada, que servia ao munícipe e, ao mesmo tempo, ao turista e que, de certa forma me abraçou afetivamente na questão do pertencimento. Era notável e visível que as políticas públicas de inclusão ali funcionavam de fato e que, embora tivessem arestas a serem aparadas, eu mergulhava com entusiasmo naquela atmosfera que eu ousei mensurar como "sentir-me igual na multidão".
Os esforços para se conseguir estar ali junto com todos, participar e pertencer aos espaços públicos eram mesmo muito menores, porque a acessibilidade reduz o impacto da deficiência e, consequentemente, nos tornamos menos incapazes. A princípio reconheci o espaço físico com as guias rebaixadas, alguns dos prédios públicos visitados com piso podo tátil, calçadas bem conservadas, vagas de estacionamento para PcD fiscalizadas de verdade, o programa Praia Acessível funcionando, academias ao ar livre com equipamentos adaptados, entre outros. A medida em que eu era inserida a esse novo universo, eu compreendia que tudo isso era resultado de uma política pública transversal, articulada e planejada pela Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e do Idoso (SEPEDI). Desejei fortemente estar ali dentro, contribuindo com isso tudo.

A acessibilidade é uma forma de conduzir cada um ao encontro de nós mesmos, da nossa própria identidade enquanto pessoas, enquanto cidadãos, muito além daquilo que nos faltava e que, em outros lugares, nos levaria a representatividade social do estigma e do menos capaz.

Falo no plural porque tenho absoluta certeza de que, assim como mandam os manuais, a política pública executada em Caraguatatuba atingiu muita gente; todas aquelas que, como eu, vivíamos em outros momentos tantos retrocessos. Caraguá foi o palco das minhas tantas primeiras vezes, àquelas primeiras vezes em que pude sentir-me eu mesma, sem preocupar-me com rótulos, ao tentar ser mais semelhante aos que a sociedade ousou "normalizar".

O sociólogo Bauman (2003) diz que a liberdade é inversamente proporcional a segurança, para explicar que quando a minoria abre mão do seu grupo menor de pertencimento e vai em direção da conquista da liberdade, ela perde a segurança, porque sua diferença torna-se mais evidente nas relações dentro de um grupo maior.

Eu então ouso contradize-lo nessa teoria, porque eu conquistei, em Caraguatatuba, a liberdade e, ao mesmo tempo, a segurança. Liberdade por estar agora socializando minha identidade; segurança, por partilhar esse pertencimento percorrendo os espaços com acessibilidade e, consequentemente com menores riscos; socializando o conhecimento técnico e profissional sobre a pessoa com deficiência.

Cheguei para ministrar dois cursos, mas talvez quem aprendeu muito mais tenha sido eu. E o grande aprendizado não foi as aplicações das normas da ABNT na afixação dos pisos podo táteis, nem nas sinalizações. O grande aprendizado centrava-se nas relações humanas que estabeleci durante o período em que fui presenteada por estar ali, servindo a população com tudo o que sei fazer de melhor em prol da pessoa com deficiência, colocando em prática o conhecimento técnico e exercitando a empatia ao enxergar no outro a possibilidade de pertencimento que talvez nem ele tivesse a dimensão de conquistar.

O maior aprendizado foi conseguido na coletividade, vivenciado pela atmosfera colaborativa, em que estávamos juntos por um só ideal: executar, implementar, planejar políticas públicas de inclusão que fossem impactantes e capazes de devolver a dignidade e a cidadania de milhares de pessoas com deficiência e idosos que viviam às margens desse universo amplo de possibilidades. Foram tantos momentos, enquanto servidora municipal, que me fizeram mais gente, mais profissional, mais confiante de que, aquele novo desafio também cabia dentro dos meus sonhos. Eu iniciei o meu relato dizendo que, embora eu tivesse vivido diferentes experiências profissionais, todas elas tinham sido basicamente na área da educação. Dessa vez era diferente. Ao mesmo tempo que eu estava sendo elevada à categoria de cidadã, eu seria também a responsável por alargar as fronteiras de outras pessoas.

A SEPEDI sob a gestão de Ivy Malerba me fez conhecer mais as outras ações com impacto direto na sociedade caraguatatubense, como a empregabilidade para PcD, o Prêmio Empresa Inclusiva, as formações ministradas a outros servidores municipais sobre como lidar com a PcD, os eventos nos Fóruns Inclusivos, no programa calçada acessível, entre outros.

A gestão de uma secretaria dessa magnitude também faz diferença no sucesso dessa política pública que, em tantos lugares tem sido negligenciada e delegada a segundo plano. Essa gestão consciente e humana me conduziu para que eu fizesse o meu melhor. Acontece que esse "melhor" só foi possível porque eu pude contar com uma boa liderança. Não só isso; pude contar com recursos e ferramentas disponibilizadas para que eu exercesse a minha função operacional e técnica. Foi no exercício da profissão que eu ampliei e alarguei as minhas fronteiras muito além do olhar pedagógico. Assim que mudamos para um espaço novo e mais amplo também fui presenteada com a possibilidade de usar um notebook com software leitor de telas, sem que fosse preciso usar o meu próprio equipamento, uma impressora Braille, um acervo inteirinho de material de consulta em Braille e algumas adequações no sistema interno para adequar uma programação com acessibilidade e mais usabilidade. Enfim, tive a tão sonhada autonomia e independência no espaço de trabalho, com a capacidade de decisão sobre os usos dessas ferramentas. Superamos juntas todas as barreiras físicas que faltavam, pois, as atitudinais, essas já estavam incorporadas a agenda do governo municipal. Fui ouvida e consultada todas as vezes.

Entendemos a política pública como as ações, metas e planos que os governos traçam para alcançar o bem-estar da sociedade e o interesse público. Desde que o interesse público esteja alinhado com as necessidades do povo, essas políticas públicas são muito mais impactantes positivamente. Fui respeitada como profissional e como cidadã, de modo que enxergaram os meus alcances, muito mais do que os meus limites, fazendo coro para todos os que recebiam da secretaria a cidadania materializada por uma tecnologia assistiva, por um atendimento humanizado, por um evento organizado com interpretação de Libras e Audiodescrição, pelos espaços com acessibilidade, por um atendimento no comércio ou no setor hoteleiro resultante da capacitação oferecida para lidarem com esse público, por um banho de mar junto aos instrutores, por um passeio na trilha sensorial, por uma sinalização e cardápios acessíveis em Braille, pelas oficinas no centro de convivência e tantas outras ações que foram decisivas para esse pertencimento tão intenso. Lembrando que políticas públicas não são e nem nunca foram praticadas como assistencialismo.

Fui profissional, mas acima de tudo fui cidadã, munícipe, fui povo. No conselho da pessoa com deficiência, um espaço de decisões muito impactantes para a fiscalização e para a propositura de questões para qualificar ainda mais esse trabalho articulado, tornei-me mais politizada.

O Conselho me fez mais politizada e consciente de que o individual não cabe na política pública, mas que o coletivo abraça cada uma dentro das possibilidades e especificidades das demandas sociais. Fizemos eleições com acessibilidade, pleitos que até então não partiam da premissa "Nada sobre nós, sem nós".

Finalizei o meu percurso como servidora municipal em dezembro de 2016, certa de que as novas experiências abraçadas por mim seriam tão especiais quanto cada uma das que vivenciei durante o meu desenvolvimento profissional.

Portal EI: Atualmente qual tem sido o seu envolvimento com os processos inclusivos?

LM: Hoje, além de consultora em AD, sou tutora eletrônica nas disciplinas pedagógicas nos cursos de licenciatura do Núcleo de  educação a distância da Universidade de Taubaté.
Embora eu já tivesse  bastante familiaridade com a plataforma Moodle e grande desenvoltura no uso de tecnologia assistiva, em especial leitores de tela para computador, logo que fui chamada a assumir a vaga a qual conquistei em um processo seletivo, nem eu nem a instituição tínhamos a real noção de como seria esse trabalho.
É nesse ponto que tenho defendido o que pontuo como sendo o processo de inclusão dialógico e ativo. Todos os profissionais os quais passei a conviver, da área pedagógica, de tecnologia da informação, ao administrativo, me acolheram com muito carinho e total isenção no que diz respeito à deficiência visual. Mais uma vez senti-me profissional, senti-me gente e cidadã, senti-me igual na  multidão. Foi a partir do diálogo que a nossa relação se estabeleceu da maneira mais natural possível. 
A ênfase nunca esteve no que faltava, mas no que era possível alcançar.  Fui colocada na centralidade desse processo quando me confiaram o dever de cumprir as tarefas comuns a todos os demais tutores, abrindo-se para a escuta às minhas necessidades e também para o enfrentamento das situações mais técnicas. Graças ao diálogo e ao esforço conjunto, hoje temos uma plataforma com maior acessibilidade também para os alunos com deficiência visual que frequentam ou que vierem a frequentar esta Instituição de ensino Superior. Por onde passo tento plantar a “sementinha” da inclusão, o que me realiza como pessoa e como profissional. Diferentemente de tudo o que eu já havia feito durante o meu percurso profissional, atuando apenas com questões ligadas a educação especial e inclusiva, aos direitos da pessoa com deficiência e acessibilidade,  ali no NEaD as minhas atribuições são  outras. Isso fez com que eu alargasse minha visão de mundo para além do que eu enxergava até então. Ultrapassei as fronteiras do que imaginei não ser possível desvencilhar e percebi que a transversalidade da educação especial permite que ela faça coro com qualquer outro ato formativo, sem delimitação de espaços, sem separação conceitual. O engajamento que tenho com acessibilidade também tem sido fundamental para que,  junto com os demais profissionais, possamos contribuir com as situações de planejamento e reorganização da IES para continuar melhor atendendo os estudantes com deficiência visual. Aos poucos minha história vai sendo descoberta pelos alunos, assim como as histórias de vida deles vão se entrelaçando com a nossa. Tem sido muito especial e gratificante realizar a tutoria eletrônica, em especial porque sempre desejei atuar no ensino superior com formação de professores. Considero que essa etapa formativa seja decisiva para o desenvolvimento profissional docente dos futuros professores que se apropriam de um novo modelo de pensar educação. Sou o exemplo de que a educação transforma vidas e é sob essa perspectiva que eu enxergo a minha, a nossa missão dentro da IES em que tenho o privilégio de compor o corpo docente. Sou grata a Unitau na figura dos funcionários, direção, corpo docente e alunos por me permitirem viver essa experiência linda!

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Imagem: foto do acervo da Luciane Molina

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Imagem: foto do acervo da Luciane Molina

CONTATO

55 12-981020340
braillu@gmail.com
Facebook e Twitter @braillu

LM: Como pesquisadora e consultora em audiodescrição tenho desenvolvido trabalhos desde 2010, ano em que produzi  o primeiro curso de formação de roteiristas na modalidade de Educação a Distância. Já fiz consultoria para exposições de fotografia, museu e material audiovisual, atuando junto a equipe de acessibilidade da TV Aparecida. Sou professora e co-produtora dos cursos de Audiodescrição  em parceria com a profª Dra  Ana Julia nas turmas básica, intermediária aplicada a objetos educacionais e intermediária aplicada a objetos culturais, ambos ofertados pela Azimuth E-Learning.

 

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Imagem: foto do acervo da Luciane Molina

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