VIVÊNCIA COM ALUNOS COM DEFICIÊNCIA FÍSICA

NA SALA REGULAR DO ENSINO FUNDAMENTAL – CICLO I

Maria Aparecida Ferreira de Paiva

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Imagem: acervo Portal Educação Inclusiva

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Sou pedagoga há quinze anos, atuando, principalmente nos anos iniciais do Ciclo I do Ensino Fundamental, por ser apaixonada pelo processo de alfabetização, momento este em que a criança mergulha no mundo da leitura e escrita convencionais, adquirindo autonomia para vivenciar novas e ricas descobertas no mundo letrado.
Em junho de 2012 assumi o cargo efetivo na prefeitura municipal de Pirajuí, São Paulo, de professora de Educação Especial para atuar em salas de recursos multifuncionais em escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental. Um novo mundo se abria para mim, repleto de receios, de insegurança, porém de muita força de vontade para aprender e fazer algo diferente pelas crianças a serem atendidas.

"Um novo mundo se abria para mim, repleto de receios, de insegurança, porém de muita força de vontade para aprender e fazer algo diferente pelas crianças..."

Durante os anos de estudo na especialização tinha noção dos desafios a serem enfrentados, por conhecer o histórico da Educação Especial no país, por saber que o município estava engatinhando na oferta deste serviço, por reconhecer que lidar com a diferença na escola ainda era visto com ressalvas e preconceitos e por vivenciar situações em que a homogeneidade era tida como o ideal, me coloquei na posição de busca por uma educação de qualidade àqueles que estavam à margem deste processo.

Possuía conhecimentos a respeito das legislações vigentes, as quais garantiam o acesso e a permanência dos alunos público-alvo na Educação Especial preferencialmente nas salas regulares, todavia sabia que o cotidiano escolar estava permeado por práticas e convicções, muitas vezes, nada inclusivas.

Tinha diante de mim dois cenários: um onde uma professora especializada em deficiência intelectual atuava em salas de recursos multifuncionais lidando com todos os tipos de deficiência; outro em que uma professora de sala regular buscava o melhor caminho para garantir a seus alunos os direitos de aprendizagem na fase de alfabetização.
Foi então que no ano letivo de 2015 no momento da atribuição de aulas eu escolhi uma turma de primeiro ano em que haviam inseridos dois alunos com deficiência física decorrentes de uma paralisia cerebral devido a demora no momento no nascimento. Esta configurava-se como minha primeira experiência profissional numa sala regular com crianças com deficiência comprovada. O desafio estava posto.

 

 

"... lidar com a diferença na escola ainda era visto com ressalvas e preconceitos. "

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Imagem: acervo do Portal Educação Inclusiva

Era uma menina, aqui chamada de Ana e, um menino, com nome fictício de André. Ela tinha um comprometimento motor mais leve, conseguia fazer a preensão correta dos lápis e materiais, conseguia escrever com autonomia, necessitando apenas de um tempo maior para realizar as atividades propostas. Já o André tinha os membros superiores bem comprometidos, era dotado de membros rígidos e de constantes espasmos, o que dificultava sua preensão e registro gráfico. Sua fala também era deficitária, eu tinha dificuldades em compreender o que falava, precisando pedir para que repetisse o que queria diversas vezes.

A escola não possuía recursos materiais apropriados para eles, tais como, por exemplo: carteiras adaptadas, notebooks, pranchetas, lápis jumbo de escrever e de cor, apontador e tesouras adaptadas. Fazíamos os requerimentos com os pedidos de materiais, mas, muitas vezes precisava dar um outro jeito de consegui-los mais rapidamente. Foi assim com os notebooks, os quais a diretora da escola conseguiu por meio de doação. Em agosto de 2015 eles chegaram. O momento da entrega foi especial. A diretora chegou com os dois notebooks novinhos, na caixa e entregou para Ana e André. As outras crianças compartilharam com muita alegria este momento de conquista. Eu já os havia preparado anteriormente explicando da necessidade dos dois coleguinhas em ter este recurso para realizarem algumas atividades. Eles compreenderam e nunca me causaram transtornos por ter na sala de aula um recurso tecnológico tão atrativo.

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Imagem: acervo do Portal Educação Inclusiva

Como o prédio é antigo, também não era dotado de rampas de acessibilidade e banheiros adaptados. Tivemos que solicitar junto aos órgãos competentes da prefeitura algumas obras para que os dois pudessem ter garantido o direito de locomoção sem maiores barreiras arquitetônicas à frente. Conseguimos algumas rampas, porém ainda há outras obras a serem realizadas para melhor acessibilidade e movimentação deles.

Outra dificuldade existente era o fato de não termos na prefeitura o cargo de cuidadora, assim eu precisava lidar sozinha com os dois durante as aulas. Quando precisavam ir ao banheiro ou durante a alimentação no recreio as inspetoras de aluno que realizavam esta função.

A direção da escola e eu solicitamos junto à Secretaria de Educação uma cuidadora, a qual demorou um bimestre para ser contratada. Na verdade, a solução que deram foi contratar estagiárias para exercerem esta função nas escolas. Durante este período eu precisava dar conta de tudo sozinha. Muitas vezes sentia-me frustrada por entender que a necessidade dos dois não estava sendo plenamente atendida por aquela unidade escolar, porém tentava proporcionar o melhor para cada um deles e para todos da turma.

Falando nisso... algo que sempre me causou muita alegria foi perceber a abertura dos colegas de sala para com estes dois alunos com paralisia cerebral. Todos eram sempre muito solícitos e dispendiosos a ajudar, gostavam de sentar junto, de empurrar as cadeiras de rodas, de dividir os materiais e de estar na companhia deles. Nunca presenciei nenhum fato de preconceito ou discriminação, muito pelo contrário, apenas atitudes de afeto, carinho e solidariedade. 

Era isto que procurava incutir em suas mentes, que somos iguais em meio as diferenças, que a diferença não pode nos separar, pelo contrário, pode e deve nos unir para nos tornar pessoas melhores a cada dia. O respeito e a amizade eram vivenciados diariamente por todos da turma. Procurava realizar leituras, levar músicas e fazer brincadeiras que tratavam a respeito dessas questões de valores, assim os conteúdos atitudinais eram trabalhados de modo prático, prazeroso e reflexivo.

Em 2016 e 2017 não consegui mudar de turma. Continuei como professora deles. Não muito diferente aconteceu agora em 2018. No momento da atribuição de aulas decidi dar continuidade ao trabalho com esta turma, principalmente por me sentir responsável por Ana e André. Por desejar proporcionar a eles outras e maiores conquistas no processo de escolarização.

Em 2016, estando eles no 2º Ano do Ensino Fundamental, vivenciei um dos momentos mais apaixonante e comovente. Ao realizar a avaliação diagnóstica de Língua Portuguesa com Ana foi constatado que ela estava alfabetizada, que já havia se apropriado do funcionamento do sistema alfabético de escrita, que já escrevia e lia convencionalmente. Que alegria! Não me contive. A peguei e saí pelos corredores da escola com lágrimas nos olhos e sorriso no rosto mostrando a todos a sua conquista, a qual, ao mesmo tempo não era só dela, mas também da família que a ajudava muito em casa e, porque não, minha também, que como professora a vi além de sua deficiência e dificuldades, dando atenção individualizada sempre que possível.
Em 2017 vivenciei outra conquista de Ana. Já conseguia ficar em pé sozinha e caminhar com autonomia. Que felicidade! Compartilhamos esta conquista com todos da escola durante uma apresentação de música, na qual Ana ficava em pé e andava. Foi impactante a todos os presentes!
Enfim, chegamos ao ano letivo de 2018 e, mais uma vez, não consegui deixar esta turma tão querida. Continuo sendo a professora deles, agora, 4º Ano do Ensino Fundamental. Um grande desafio para mim, pois sempre tive mais perfil e experiência em pegar turmas de 1º e 2º Anos. É a primeira vez, em quinze anos de profissão, que escolho uma turma de 4º Ano.

Os desafios não param. Esta semana vivenciei um momento muito delicado com o André, o qual é um menino muito esperto e sorridente. Na segunda-feira ele me avisou que ia faltar à aula na terça-feira, pois tinha uma consulta médica. Quando chegou na sala de aula na quarta-feira começou a chorar desesperadamente. A cuidadora, as crianças e eu não entendíamos o que estava acontecendo. Foi então que resolvi deixar a turma com a cuidadora e sair com ele. O levei até o pátio, lavei seu rosto e fui acalmando-o. Foi então que me pediu para ligar para a sua mãe e perguntar para ela o que a médica havia dito. Assim eu fiz. A mãe me relatou que a médica ao analisar os exames do André constatou que a mancha que tem no cérebro o impedirá de andar, pois até então ela havia dito que ele poderia andar até os dez anos. Porém, disse isto tudo para a mãe na frente do menino, o qual sempre teve esperança de um dia poder andar. Ele ficou destruído interiormente. Com esta atitude a médica matou um dos maiores sonhos que cultivava – poder andar um dia. Estando a par da situação, pude compreender o motivo do choro desesperado e profundamente sentido de André. Fui até ele e olhando em seus olhos conversei sobre o ocorrido, pedindo para não desistir nunca, para sempre ter esperança de que as coisas podem mudar e que se não mudar pode ser feliz mesmo assim, basta confiar em Deus. Após esta conversa, nos beijamos e abraçamos, ele se recompôs e conseguiu assistir aula o período todo. No dia seguinte estava normal, sorridente e falante como antes.

"Inclusão é isto...é você se colocar no lugar do outro, é você se doar por inteiro, é você buscar os meios para garantir a todos e a cada um seus direitos de aprendizagem, é você lutar para vencer todas as barreiras impostas à sua frente, sejam elas, arquitetônicas, materiais ou atitudinais."

Sem dúvida nenhuma esta experiência de trabalhar com alunos com deficiência inseridos em salas regulares pode fortalecer minhas concepções e convicções a respeito da inclusão escolar, dos benefícios que ela traz para todos os envolvidos, do quanto estas crianças precisam ser enxergadas e trabalhadas para se desenvolverem mais e melhores, do quanto as barreiras podem ser vencidas por meio do estudo e da busca de soluções, do quanto o caminho é árduo, porém imensamente rico e propulsor de conquistas diárias e eternas. Sem falar que fortaleceu e aprimorou ainda mais meu trabalho nas salas de recursos, pois ao vivenciar os dois lados da mesma moeda pude refletir acerca do cotidiano escolar e do processo de inclusão de forma mais humana. Pude sentir e compartilhar o que meus colegas de profissão sentem, na maioria das vezes, ao receber um aluno com deficiência, mas pude também servir de exemplo visível e palpável de que é possível.
O professor tem em suas mãos a chave para abrir portas rumo ao conhecimento e às descobertas que nem imagina, tornando-se o ator principal das histórias de vidas de cada criança, seja ela com ou sem deficiência e, ao mesmo tempo, moldando e transformando sua própria vida e história, tornando- se mais humano e um profissional mais apto a lidar com a diversidade existente nas escolas e na vida em geral.

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