HÁ UM PROPÓSITO EM TODAS AS COISAS

Paula Ernestina Leal de Oliveira Cardoso

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Imagem: acervo Portal Educação Inclusiva

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Parecia um ano letivo normal na escola de educação infantil X, em Uruguaiana, RS, repleto de desafios, como de costume, mal sabia eu que logo ali adiante eu enfrentaria um dos maiores desafios da minha carreira até hoje. Naquele ano eu atuava somente na educação infantil, aguardava nomeação em concurso público do magistério estadual, recebi pela manhã uma etapa II e pela tarde uma etapa III e foi nesta turminha de três anos que já com as aulas em andamento recebemos um menino lindo que me renderia muitas noites sem dormir. Iremos chamá-lo de Y.
Nos causou estranhamento o fato de já no primeiro dia Y vir diretamente de transporte escolar e não acompanhado pelo familiar para entrevista, conforme orientações dadas a família no momento da matrícula, mesmo assim acolhemos o menino com muito afeto. Percebemos que Y era muito diferente, aos três anos completos, não caminhava, arrastava-se, não falava, apenas balbuciava alguns sons e gritava o tempo todo e ainda usava fraldas, foi um susto! Nunca antes havia trabalhado com uma criança especial e não havia sido comunicada previamente.

 

 

"... aos três anos completos, não caminhava, arrastava-se, não falava, apenas balbuciava alguns sons e gritava o tempo todo e ainda usava fraldas, foi um susto! "

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Imagem: Projetado por Freepik

Então, seguindo as regras da escola solicitei a presença da família para a entrevista, quando fiquei sabendo da triste história daquela criança, através da avó materna, quem tinha a guarda de Y, o que explicava tudo. Y era filho de uma prostituta, dependente de Crack, que havia falecido quando o menino tinha oito meses de vida. A avó relatou que a mãe usou faixas para apertar a barriga durante toda a gestação, como também não havia feito o pré-natal, questionei a avó sobre o atual acompanhamento médico de Y, e ela respondeu-me que havia o levado ao médico e que o mesmo havia falado que Y jamais caminharia ou falaria, que não havia o que ser feito, que além do mais ela era muito ocupada, trabalhava muito e não possuía tempo para leva-lo periodicamente ao médico, apesar dessas colocações da avó, solicitei junto a orientação da escola encaminhamento para o neuropediatra, mas nunca obtive retorno por parte da avó.

Após a conversa com a avó retornei à sala de aula e repassei à colega auxiliar pedagógica todas as informações e ela também percebeu que teríamos um grande trabalho pela frente e o auxílio dessa colega foi imprescindível naquele momento. Estávamos com o projeto “Minha Boneca de Lata” em andamento composto por inúmeras atividades de movimento, pintura, colagem, rodas de conversa, passeios, etc.

Foi extremamente difícil o desenvolvimento das atividades, a turma se dispersou muito, Y gritava sem parar, não concentrava-se com absolutamente nada, colocava todos os brinquedos das prateleiras para o chão, essa rotina perdurou por alguns dias, até que após algumas leituras e assistir alguns vídeos decidi levar para a sala de aula metodologias de organizações prévias de aulas de judô, que consistia em retirar absolutamente todos os móveis de dentro da sala e cobrir o chão da mesma com colchonetes.

No primeiro dia foi uma surpresa e tanto para as crianças serem recebidas naquele ambiente diferente, pedi para a colega retirar-se com Y da sala momentaneamente e tive uma conversa com os pequenos sobre Y, e fui questionada pelo o fato dele não caminhar ou falar, escutei falas do tipo, prô, o Y grita muito, dói meu ouvido. Ou ainda, prô, o Y não caminha por que é um bebê grande. Então após o diálogo expliquei de modo bem leve que iria precisar da ajuda de todos com o cuidado com Y, para que ele pudesse caminhar e falar, e a partir daquele momento era emocionante presenciar dia a dia o cuidado e afeto que cada um tinha com Y, essa interação com certeza foi valiosa. Assim que retornou à sala Y observou a mudança atentamente, não gritou, acredito que os diversos recursos visuais ali anteriormente existentes, de certo modo agrediam o menino, então ao som de uma canção instrumental fomos dando comandos como rolar, pular, correr e de seu modo Y foi participando, que vitória!

 

 

"... e a partir daquele momento era emocionante presenciar dia a dia o cuidado e afeto que cada um tinha com Y, essa interação com certeza foi valiosa."

Ao nos retirarmos da sala de aula Y ia em um carrinho de bebê, como uma criança com problemas motores seria estimulada sentada em um carrinho? A partir dessa reflexão trocamos o carrinho de bebê, ora por um carrinho de empurrar que tínhamos na escola, ora por um lençol amarrado em torno do tronco de Y e íamos segurando atrás, no início foi muito difícil, já que ele não apresentava se quer tônus muscular nos membros inferiores, observamos que y demonstrava mais afinidade com J e então solicitamos que a coleguinha fosse conversando com y o motivando a seguir com a turma, ela dizia, vamu Y, vamu na pacinha? Ela também afinava-se com Y e quase sempre iam de mãos dadas. Dia a dia a turma foi ficando mais tranquila, passamos então recebê-los com as cadeiras organizadas em círculo, para nosso primeiro momento, roda de conversa, ali dialogávamos sobre diversos assuntos, cantávamos canções e não só Y, mas todas as crianças eram respeitadas quando não queriam permanecer nesse momento, mas sempre permaneciam, pois apreciavam muito as cantigas de roda, Y permanecia alguns momentos e logo ia explorar a sala. Em alguns momentos ainda apresentava crises de gritos, porém era chamando-me tia Pala! Tia Pala, o que não me incomodava, já que o menino havia começado a falar. O menino Y vinha para escola com aspecto e odor de falta de higiene, mesmo sabendo que a higiene maior é competência da família, dávamos banho em Y, e mesmo após inúmeras conversas com a avó a situação continuava a mesma.
Nesse momento havia passado quase todo o ano letivo, estávamos em novembro, quando fui nomeada para o magistério estadual, tive que deixar a turma, pois havia vaga somente naquele turno, então meus pensamentos se aglomeravam em interrogações, o porquê eu havia assumido aquela turma com aquela criança se era para sair assim, sem concluir?

Durante a última semana, planejei atividades festivas para a minha despedida, no último dia tratava-se de um passeio de bicicleta no saguão da escola, todas as crianças trouxeram bicicletas, menos Y. Ele ficou eufórico ao ver as bicicletas decoradas, minha colega e eu, estávamos conversando sobre alguns detalhes da atividade e eu segurava Y pela mão, ele incansavelmente gritava, qué! (quer), qué! (quer), e eu argumentava, só um momento Y, já vamos. Quando de repente Y soltou a minha mão e saiu caminhando, uau! Foi um misto de susto, com alegria, dessa vez fui eu quem gritou, como se houvesse ganhado o maior prêmio de uma loteria, chamei a orientação pedagógica e alguns colegas vieram ver o que havia acontecido, Y estava caminhando! Era meu último dia na turma.

Foram muitas noites sem dormir, lendo, pensando, foram muitas as vezes que a vontade de desistir foi grande, até tentei, mas após uma conversa com uma amiga muito sábia, onde ela disse-me, se a vida te confiou essa criança, há um propósito, não desista, tu és capaz, alguma diferença irás fazer nessa vida. Ela tinha razão!
Nesse breve relato pareceu fácil, mas não foi e não é, houve entrega, compromisso, mas isso custou, cansaço físico, cansaço mental, medo, insegurança, mas no final de tudo, o alcance do objetivo, que segundo a avó seria impossível, Y jamais caminharia ou falaria, foi possível, é possível! Só basta que desenvolvamos a maior pedagogia de todas, a do amor!

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